Recebi o link para sua palestra, que chamaram de Pregação chocante, mas não tive tempo de assistir. E no domingo seguinte, no nosso grupo de discipulado, um jovem falou da palestra, que havia sido enviada pela nossa amiga também do discipulado. Fiquei curiosa e fui assistir. Foi uma pancada na cabeça, um soco na boca do estômago.
Concordo com você em tudo que disse. Você falou o que eu prego também. E, como você, tenho sido pregadora de uma vez em algumas comunidades que me convidam para falar.
Mas quero defender alguns desses jovens, que aparentemente têm apenas um momento de emoção, mas na verdade tiveram um encontro genuíno com o Eterno. E eu conheço a dor deles.
Sabe, Paul, já vi muito jovens voltarem de encontros em que foram confrontados com a Palavra e vi a sinceridade de suas decisões. Mas você deve imaginar, creio eu, o quanto é difícil voltar do 'monte' e encontrar o povo adorando o bezerro de ouro. Porque quando eles voltam para suas casas e comunidades (igrejas locais), eles são roubados de tudo aquilo que receberam no encontro.
Eu já vi isso acontecer tantas vezes. E meu coração chora. Pais que criticam seus filhos, porque voltam querendo santidade, com sede e fome do Eterno, e começam a ler mais a Bíblia e não querem mais ficar na frente da televisão. E sabe o que muitos pais, que se dizem cristãos, fazem? Eles brigam com seus filhos. A pergunta preferida deles é: ‘Virou fanático?’ Uma mãe, cristã?, teve a coragem de gritar com um pastor que queria sua filha de volta, porque sua filha havia voltado transformada de um encontro.
Já vi líderes de comunidades evangélicas zombando de adolescentes e jovens que estavam buscando orar e estudar a Palavra. Por incrível que pareça, eu vi líderes proibindo alguns jovens de se reunirem nas salas da igreja, porque estavam orando demais. É verdade. Eu até falei sobre isso no meu livro. Coloquei o trecho aí embaixo.
Na verdade os jovens querem mais do Eterno, eles querem o sobrenatural, eles querem ser radicais, mas as comunidades não incentivam, elas até impedem. Como diz Rick Joyner, 'a natureza espiritual, assim como a natureza física, será servida; neguem-lhe alimento, e ela engolirá veneno' (Rick Joyner, em O Ministério apostólico).
Na verdade esses jovens, esses que tiveram uma conversão verdadeira, eles querem mais Bíblia e oração, mas seus líderes só querem saber de fazer festinhas e dizem que precisam fazer festinhas para segurar o jovem na igreja, porque é melhor ele se divertir na igreja, do que estar no mundo, e porque eles precisam mostrar para seus amigos não-cristãos que, mesmo sendo cristãos, eles também se divertem.
É claro que esses líderes nunca tiveram uma experiência sobrenatural com o Eterno. Porque quem tem uma experiência assim, não precisa de diversão do mundo. Eles não entendem que nossa diversão é outra. Como diz ainda Rick Joyner:
"É fácil discernir os que são chamados, porque eles sãos diferentes. Enquanto os outros estão crescendo espiritualmente, estes estão crescendo radicalmente. Enquanto outros estão se divertindo, eles estão estudando, orando, saindo às ruas e testemunhando, expulsando demônios e orando pelos doentes para que sejam curados. Essa é a diversão deles." (Rick Joyner, em O Ministério apostólico)
Posso me colocar como porta-voz desses jovens e dizer: ‘Chega de festinhas, nós não queremos mais festinhas, muito menos festas pagãs, queremos o sobrenatural do Eterno’. Nós queremos o Eterno e não importa o que vão pensar de nós.
Na verdade nós queremos pregadores que falem o que você falou. E nós queremos pregadores que vivam o que pregam. Nós queremos disciplina. Clamamos por isso. Mas aqueles que deveriam ser nossos exemplos não querem.
Nossos pais não querem filhos santos. Eles querem filhos 'felizes', por isso fazem todas as nossas vontades. 'Quer fazer tatuagem? Tudo bem, se isto te faz feliz'. 'Quer namorar" Tudo bem, melhor na minha frente do que escondido'. Eles querem filhos com boas escolas, bons empregos e sucesso na carreira. Querem filhos que namorem os melhores partidos segundo os padrões do mundo, em que o sonho de genro e nora agora é jogador de futebol e modelo, ou seja, quem tem dinheiro. Eles não querem que seus filhos sejam educados como seus pais e a igreja do passado fizeram, com 'não pode isso, não pode aquilo', porque o jovem se revolta e sai da 'igreja' (na cabeça deles, foi por isso que muitos saíram das igrejas e não por falta da presença do Eterno nas igrejas). Muitos nem querem ouvir falar desse negócio de usos e costumes, porque não querem repetir os erros do passado, que os deixaram traumatizados. E jogam o bebê fora, junto com água do banho.
Acho que não existem pais como você, Paul, que diria isso ao seu filho, se ele quiser ser missionário. Nossos pais não querem filhos missionários, nem filhos profetas. Estes, então, nem pensar, porque vão ficar mostrando as coisas erradas que os pais fazem.
E não existem muitos pregadores como você. Os líderes também não querem discípulos santos, porque assim vão evidenciar a falta de santidade dos líderes. Discípulos profetas? De jeito nenhum, eles incomodam demais, ficam falando de pecado, são 'insatisfeitos', 'críticos', 'problemáticos' e 'desajustados', têm 'problemas de relacionamento', 'fanáticos'.
Não. Se nem os nossos pais e líderes querem abandonar os prazeres do mundo, como é que os jovens vão abandonar? Se os pastores torcem para seus times de futebol no púlpito, exibem suas camisas do time do coração no orkut, se muitos assistem aos jogos o dia todo (eu já vi isso, se a boca fala do que o coração está cheio... por isso falam tanto de futebol nos sermões), como vão ensinar santidade? (Ah, eles deveriam ler o livro Culto ao futebol).
Por isso eles autorizam festas e mais festas nas igrejas. Baile funk gospel? Autorizado. Festa à fantasia na semana anterior ao carnaval? Vai ter devocional? Ah, então pode, não tem problema. Ensinar karatê na igreja? Ah, isso é bom, vai atrair aqueles que 'nunca' entrariam em uma igreja, vai evangelizar. Legal, dou o maior apoio. Festa junina com outro nome? (Ai, melhor não comentar, porque isso virou praga no Rio de Janeiro).
Imagine-se no lugar desses jovens, quando voltam do ‘monte’ e seus amigos da igreja zombam deles porque eles resolveram viver a santidade. Imagine a pressão que é isso. É muito difícil. E, pior ainda, não poder contar com o apoio de seus pais e líderes evangélicos.
Os pais ou líderes oferecerem discipulado? Discipulado verdadeiro? Nem pensar, dá muito trabalho e implica em mudança de vida, implica em confrontar a vidinha mais ou menos que vivem.
Incentivo ao jejum? De jeito nenhum. Melhor incentivar à gula, fazendo festinhas com muita comida, ou indo quase todo sábado para rodízios de pizzas. Afinal, eles ensinam que crente não fuma, não bebe, mas cooooome. Eu já ouvi de um sem-número de cristãos e muitos líderes.
Dei meu livro de presente a alguém da liderança de jovens de uma igreja local, e a pessoa virou para mim e perguntou, meio furiosa: ‘Você está querendo dizer o que com isso, que eu preciso de libertação?’ Bem, se ela não precisa, alguns jovens, seus liderados, devem precisar. Mas ela nem pensou neles.
Infelizmente há muito disso por aí. Eu sei, porque tenho andado em algumas igrejas e também vivi isso de perto.
É, eu vi uma coisa diferente. E pensei que estava em outro mundo. Foi em um retiro de carnaval, que fui em outro estado, na ocasião da minha libertação. Começou com as meninas que não usavam biquínis, usavam maiôs, e muitas vestiam um short por cima. Eu achei aquilo muito estranho. Ao mesmo tempo em que sentia que estava precisando daquilo. A pastora da comunidade foi à frente um dia e ofereceu camisas grandes emprestadas, caso algumas meninas tivessem ‘esquecido’ a roupa em casa. Eu pensei, se isso fosse no meu grupo, o que o povo diria? Antes de sair do quarto as meninas perguntavam umas às outras se estavam decentes? E eu olhava aquilo e pensava: ‘estou sonhando’. E para completar meu espanto, uma delas me disse que fazia a corte há dois anos e ia casar. ‘Casar? Mas você é tão novinha’. E ela me disse, assim, com toda calma: ‘Crente não pode namorar muito tempo’. Foi ali que ouvi pela primeira vez sobre a corte e sobre os livros do Eric e Leslie Ludy. Hoje sou uma divulgadora apaixonada da corte. Infelizmente, isso foi único. Tenho procurado a mesma coisa em comunidades da minha cidade, mas é difícil encontrar.
Mas sabe de uma grande verdade, os jovens querem uma igreja-linha-dura, mas não encontram. Eles querem, sim. Eu sei disso. É como as crianças, elas, no fundo querem disciplina, elas gostam das pessoas que dizem não. Eu sei disso, por experiência própria.
Outro dia uma mãe me perguntou se eu conhecia uma igreja-linha-dura, porque seu filho estava em busca de santidade, mas a que eles frequentavam não ajudava e ainda atrapalhava, e ele não queria trocar seis por meia-dúzia. Infelizmente tive que responder que não conhecia, que me falaram de uma, mas é longe, mas eu não a conhecia. Por conta disso, fui visitar essa comunidade e o que pude perceber é que há realmente uma atitude diferente. Apesar da liturgia igual a todas as outras, música, música, música e sermão – que foi longo –, o pastor pegou pesado, tipo você e eu, rsrs. Havia alguns livros sobre corte na livraria deles. Mas não sei como são na intimidade, se vivem o que pregam. Não sei se o pastor fala de futebol no sermão (tenho horror a isso), ou se fica contando piadas (roda de escarnecedores) e acha que eu tenho que rir, não sei como é de verdade, a primeira impressão é que é uma igreja-linha-dura, mas é uma raridade aqui na nossa cidade.
Aí os pastores não entendem e ficam reclamando, porque os jovens ficam mudando de igreja. Na verdade eles estão em busca dessa igreja-linha-dura, mas quando chegam na outra, veem que não muda nada, se decepcionam, procuran outra e outra, alguns até acabam voltando. à original, pelo menos ali já conhecem os defeitos e gosta dos amigos.
É, meu amigo, é difícil ser jovem cristão radical dentro das comunidades evangélicas no Rio de Janeiro.
Mas imagine o conflito desses jovens. Eu me coloco no lugar deles e choro por eles. Porque o difícil não é ser radical para o mundo, para os amigos não-cristãos, o difícil é ser radical dentro de nossas casas, com nossos familiares cristãos, e dentro de nossas comunidades evangélicas, enfrentando a zombaria e crítica de quem esperávamos incentivo e apoio.
É claro que também me coloco no lugar dos pais, líderes e pastores, porque sei o quanto é difícil náo ter respostas. Por muito tempo, antes da minha libertação, eu não tinha coragem de falar que o Eterno mudou a minha vida, ou que ele era a resposta para os problemas, porque eu não podia falar daquilo que não vivia. E eu não vivia o sobrenatural. Não tinha respostas.
Fico imaginando a angústia de um líder, que tem que aconselhar um adolescente em suas crises existenciais, e chegar em casa e chorar, porque, apesar dos conselhos, 'ora que melhora', 'leia mais a Bíblia que isso passa', apesar de falar isso, ele mesmo tem um monte de crises, um monte de problemas, enfermidades, e nem mesmo consegue acreditar naquilo que falou e nem seguir seu próprio conselho.
Eu ainda não tenho todas as respostas, mas hoje já posso indicar o caminho, já tenho coragem para dizer que, se não encontrei a solução total, pelo menos podemos buscar juntos. E procuro viver o que prego. Quero chegar ao nível de poderem dizer que vivo o dobro do que prego, como diziam de Andrew Murray. Mas quero chegar lá e estou buscando isso.
Termino com o trecho do meu livro Libertação é confissão de pecados (Danprewan).
Shalom.
“Fico triste quando ouço pais e líderes criticarem seus filhos adolescentes que estão em busca de uma comunhão maior com Deus. Pais que pedem a seus filhos para não serem tão radicais, quando estes declaram abandonar alguma prática que consideram pecado ou um obstáculo para a santificação.
[...] Soube de pais preocupados porque alguns adolescentes decidiram não assistir a certos programas de televisão, quando eles deveriam é estar gratos a Deus por isso. Presenciei uma conversa de líderes que estavam criticando publicamente um grupo de adolescentes por estar orando muito e pedindo muito perdão. Eles questionavam como os adolescentes podiam ter tanto pecado para confessar.
Não sei o que esses pais e líderes temem. Normalmente ouço que eles têm medo de que os filhos se tornem fanáticos. Talvez confundam paixão por Jesus com fanatismo. Talvez estejam influenciados pela mídia, com as notícias de fanáticos religiosos que se envolvem cegamente em causas, nem sempre religiosas e sim políticas, e se tornam até suicidas. Mas, em vez de orientarem para que não haja o perigo desses adolescentes e jovens tornarem-se extremistas religiosos-políticos radicais, eles criticam, reclamam, zombam e até proíbem que haja reuniões de oração ou que os filhos participem de todas as atividades da igreja. Em vez de incentivarem essa busca pela santidade e o relacionamento íntimo com o Eterno, eles acabam empurrando seus filhos e seus liderados para o mundo, porque a pressão do mundo é muito grande e a concorrência nem sempre é leal.
Os pais e líderes deveriam refletir na confusão que acontece na cabeça de um adolescente quando, de um lado, seus pais e líderes o criticam por ser extravagante para com o Eterno e radical para com o pecado, e de outro lado estão os amigos da escola ou do condomínio convidando para festas, oferecendo drogas e às vezes zombando desse adolescente, porque ele decidiu não ter relações sexuais antes do casamento. E mais grave é quando esse adolescente sofre todas essas pressões negativas dentro da própria igreja e vê seus amigos cristãos evangélicos fazendo o mesmo que os amigos não-cristãos evangélicos.
Esses pais e líderes deveriam pensar nas conseqüências futuras, porque depois, quando esse adolescente se tornar adulto e passar a valorizar mais a carreira profissional, o clube, as viagens e não ter mais interesse em um relacionamento com o Eterno nem pela igreja, nem querer educar seus filhos nos caminhos do Eterno, então aqueles pais e líderes estarão nos cultos, pedindo oração pelos seus filhos que estão afastados da igreja. É claro que os pais e líderes não têm 100% de culpa, porque cada um é responsável por si mesmo diante do Pai, mas têm uma parcela de responsabilidade por essa pessoa ter se desiludido. E às vezes é um pouco tarde. Muitas lágrimas poderiam ter sido evitadas se os pais e líderes incentivassem mais e criticassem menos. Devemos buscar o equilíbrio, ou seja, não ter o exagero dos puramente emocionais, nem a frieza dos puramente intelectuais.
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2 comentários:
Débora, todos estão querendo ganhar, mas o evangelho tem haver com perder...
Nesse dilema, após lágrimas e alguns jejuns, o Espírito só me disse uma coisa:
"ensine-os a morrer..."
Graça em Glória!
Claudio.
Lá vai uma traduçao que fiz de um sermão do Paul Washer:
http://www.youtube.com/watch?v=KkkjE_Wfn3k
OVigilanteO
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