Publicação fixa: Argumentos lógicos X tratados teológicos

Meus textos questionando o sistema religioso e as mentiras do cristianismo são sempre com argumentos de raciocínio lógico, porque para mim vale o que está escrito sem interpretações humanas, sem oráculos para traduzir o texto... Continue lendo.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Meu pai não estava doente, só estava idoso. Ele não morreu, foi assassinado

"Quando eu perder a capacidade de indignar-me ante a hipocrisia e as injustiças deste mundo, enterre-me: por certo que já estou morto." Augusto Branco


Acordo no dia seguinte com um forte sentimento de indignação e impotência pela injustiça e impunidade deste país sem lei. A pergunta é: a quem devo processar, o hospital, o Estado do Espírito Santo, o Ministério da Saúde? Ou melhor, adianta processar? Vai mudar alguma coisa neste país injusto e idiota ou será só mais um processo dentre tantos milhares que já existem?

Meu pai estava idoso, sim, tentávamos nos preparar para sua partida, porque a morte faz parte da vida. Mas ele não teve direito a uma morte digna e era só isso que eu pedia. Meu pai não estava doente, só estava idoso. Ele não morreu, foi assassinado, foi vítima da incompetência, abuso de poder e ganância do sistema de saúde neste país sem lei.

Meu pai caiu, fraturou o fêmur e foi internado, e ficou esperando por uma cirurgia que nunca houve e nem haveria, porque era nítida a enrolação de todos os ortopedistas, ninguém queria operá-lo. Mas não nos informaram nada disso. E o descaso e incompetência dos médicos o levaram a uma pneumonia e derrame pleural e ele foi morrendo um pouco a cada dia.

Não nos deram opções, não nos deram alternativas, e quando alguém cogitou a possibilidade de levá-lo para casa sem ter feito cirurgia, o sistema e lavagem cerebral venceram e ele foi mantido naquele lugar de tortura e não de cura.

E ainda foi vítima do abuso de poder de uma administração burra, todos formados na idiocracia, porque seus direitos garantidos por lei não foram respeitados. O que dizer de um administrador que decreta uma norma impossível de ser cumprida? Um completo idiota.

Foram tantos os problemas e abusos, ainda vou sentar e fazer um diário completo de tudo o que passamos dentro daquele inferno de hospital, nas mãos de "profissionais" robotizados, idiotas e desumanos. Exames que não foram feitos, sangue que prescreveram e que nunca chegou, remédios que não chegavam no horário e enfermeiras que me chamaram de mentirosa quando ia reclamar do remédio que não veio e que deveria ter vindo há três horas. Fisioterapeuta que "apareceu" uma semana depois de internação, por conta própria, porque ela saiu procurando idosos na ortopedia e "encontrou" o meu pai, mas quando ela vinha só ficava cinco minutos e isso não acontecia todos os dias. P.S.: E a fisioterapeuta mandou colocar um colchão d'água para ele, mas o colchão veio com defeito e ficou vazando água a noite inteira e a pessoa que estava de acompanhante à noite não encontrou enfermeiros no setor para pedir ajuda, e ainda foi acusada de mentir. E de manhã, quando cheguei, tive que pedir três vezes para tirarem o colchão, porque meu pai havia passado a noite toda com as costas na cama molhada, e só fui atendida na terceira vez, três horas depois que cheguei, porque fiz barraco. Médicos que não liam o prontuário, chegavam para a visita perguntando o que houve e o acompanhante tinha que contar toda a história de novo, e na visita seguinte o mesmo médico ainda não sabia que meu pai havia fraturado o fêmur e perguntava o que houve. Médico que não lembrava do que falara na visita anterior, dizia que iam mudar um medicamento, mas não anotava, e depois na prescrição a enfermeira diz que ele retirou dois medicamentos, mas para mim ele disse que seria apenas um. Na outra visita ele não comenta nada sobre isso e depois a enfermeira traz um dos medicamentos que havia sido retirado. Uma bagunça. Esses são só alguns exemplos, as histórias são tantas, dariam quase um livro.

Não, não faltavam médicos ou enfermeiros, bastava chegar no posto de enfermagem na hora das novelas para encontrar três ou cinco enfermeiros olhando fixamente para a TV, concentrados no enredo. Não faltava material, aliás, havia material sobrando e o que vi ali dentro nos 17 dias que fiquei de acompanhante foi um grande desperdício do dinheiro dos nossos impostos.

Eu briguei, esperneei, reclamei com o diretor do hospital, mas nada adiantou, nada. Passei a ser odiada por todos de tanto que eu briguei pelos direitos do meu pai. Cansada, fragilizada, quase surtando, antes que voasse no pescoço de uma enfermeira, vim embora, não suportava mais aquilo tudo, fui além das minhas forças e ainda fui criticada por brigar por dignidade para um ser humano.

Eu sei que esses não são problemas somente daquele hospital, já relatei sobre a violência em hospitais aqui. Mas esse foi o último hospital e um dos piores, com certeza.

Perder meu pai não foi o problema, apenas a morte faz parte da vida, como disse a mãe de Forrest Gump. Lógico que sempre ficaremos tristes e teremos luto, mas o tempo vai diminuindo essa dor. O problema é me sentir violentada e não ter a quem recorrer, não ter com quem reclamar, não ter alguém que lute pelos nossos direitos garantidos por lei neste país sem lei, é estar indignada e me sentir impotente.

Por enquanto só me resta repetir o que escrevi no Facebook quando ainda estava "internada" com meu pai no hospital assassino: "Novamente enfrentando violência no sistema de saúde com meu pai internado com fratura de fêmur e odeio cada dia mais médicos e enfermeiros, e odeio mais ainda administradores de hospital com suas normas burras e absurdas, ou seja, odeio os "cerumanos" (Perdão aos pouquíssimos seres humanos da área)." E repetir também que "pelo menos no corredor da morte o condenado tem direito de escolher a última refeição."

E agora ainda tenho que conviver com a culpa por não ter enfrentado o mundo todo e ter dado ao meu pai um final digno, comendo angu e jiló, cercado por seus familiares. Vou ter que aprender a conviver com isso. Cuidei dele por tanto tempo e no final, vacilei feio.


Extraído de "Asterix entre os pictos"

P.S.: Comentários do Facebook
Eu, heim, gente, todo mundo vivendo o mesmo drama???? Epidemia????? Que levante a mão quem não sofreu violência. Vamos mover uma ação coletiva???????????? Ou vamos embora desta porcaria de país????????? Eu estou mais na segunda opção. Vejam os comentários postados no meu perfil do Facebook:

"Disse tudo, o que você passou, infelizmente continuo enfrentando com meu avô. O descaso é claro, pergunto algo ao médico e ao invés de me responder, ele ri. Eu não aguento mais isso."

"Eu concordo com você, aconteceu com meu pai, tinha dinheiro suficiente para ficar nos melhores hospitais, mas a ganância de um certo irmão abreviou a morte dele. E isso me consome até hoje. Então, "ele" colocou meu pai num hospital carniceiro depois que ele sofreu uma queda, tiramos de lá mas com uma escara terrível nas costas e mesmo colocando num hospital melhorzinho já era tarde demais."

"Entendo sua indignação. Passei o mesmo com os meus avós no hospital assassino!!!! Tenho o mesmo questionamento: a quem processar ????"

"Há 2 anos perdi minha mãe nesse sistema ridículo, por um erro médico, não viram que minha mãe estava com trombose e demorou um mês pra ser transferida e quando foi não adiantava mais nada a não ser amputar a perna. Depois ficou no descaso da saúde pública, sofreu duas semanas, não suportou, e Deus levou. Lembro muito bem como se fosse hoje ela falando que não queria mais ficar neste mundo. Os assassinos do hospital Salgado Filho estão lá trabalhando, revindicando salários, aff, cansa. Isso cansa mesmo. Meus sentimentos, que sei como é isso. O Brasil de poderes."

"Eu também perdi minha irmã por descuido médico. Choque anafilático durante uma tomografia. Eu sei o que você está sentindo."

"Revoltante! Passamos por dias e situações muito difíceis com o nosso filho mais velho por duas vezes internado em um hospital particular. Me senti tão revoltada e impotente quanto você. Até comida estragada eles nos serviram... A auxiliar de cozinha fazia ânsia de vômito enquanto preparava os pratos. Os curativos do meu filho ficaram no chão ao lado do leito da UTI por 3 dias!!!! As refeições não chegavam no horário, muito menos os antibióticos. Fotografamos algumas coisas, procuramos um advogado que de cara classificou nosso caso como "perdido". Guardei tudo numa pasta, chorei muuuuuuuuito e não quis mais falar sobre o assunto. Falar sobre isso me adoece!"

"Eu entendo bem o que você passou, aqui também tem um pouquinho isto, mas não quando eles veem que o idoso tem alguém. Não se culpe, você não tem culpa. Eu entendo o que você está passando, eu muitas vezes aqui tenho que lutar contra moinhos, que nem D Quixote, cuido de minha mãe sozinha, e D`us. Às vezes acho que vou sucumbir, mas D`us me dá forcas, pra lutar contra tudo e contra todos... Só Ele sabe o que passamos e não é fácil. Volta e meia adoeço por conta disto. Por sentir esta impotência, daí eu choro no travesseiro e entrego a D`us, e o que me resta é confiar nEle. Todos os dias mato um leão... Já salvei minha mãe da morte várias vezes... Eu também quero que quando ela partir, parta com dignidade. Eu Te entendo e entendo sua revolta. Oremos pra D`us te dar o consolo amada. Beijos."

"Triste, muito triste! NÃO QUERO perder NUNCA a sensibilidade e a capacidade de indignar-me ante relatos como estes.... Não se culpe amiga, todos temos um limite e o seu foi a uma exaustão diante de tanto descaso! Faça de sua indignação uma voz aos "mudos"! Denuncie, sim! Pois uma transformação para o bem, que aconteça , por menor que pareça, pode livrar alguns de violências tão cruéis. Beijos."

"Não adianta tanto avanço tecnológico se o ser humano não é valorizado. Infelizmente problemas como esse ocorrem no SUS e também no particular, e além de enfrentarmos o desgaste da doença, temos o desgaste da luta por um tratamento digno para nossos familiares. Isso tem que mudar...Vocês fizeram o possível, o sistema é que é falho. Deus de força a toda família."


P.S.2: "Meu nome é Maximus Decimus Meridius, comandante dos exércitos do norte, general das Legiões Felix... servo leal do verdadeiro Imperador, Marcus Aurelius. Pai de um filho assassinado, marido de uma esposa assassinada. E terei minha vingança, nesta vida ou na próxima."

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Gláucia, Wendell e Alexandre

Há 13 anos e dez meses recebemos e assumimos uma missão, cuidar do Joaquim. Missão dada, missão cumprida. E quero aqui agradecer a vocês três, Gláucia, minha irmã caçula, "Engli" (Wendell), marido dela, e Alexandre, meu marido. Muito obrigada por tudo que fizeram pelo Joaquim.

Eu e Gláucia assumimos a tarefa de cuidar de um pai já idoso, com vários problemas de saúde, e desde então dividimos tudo, as alegrias e tristezas, as piadas e os sustos. E minha irmã caçula é uma guerreira. Estivemos juntas nas salas de espera das cirurgias de catarata do velho e da cirurgia para colocar prótese no joelho. E mesmo nas outras duas cirurgias por causa da fratura do fêmur, estivemos juntas em pensamento, porque Gláucia estava recebendo Thalles, que nasceu bem nessa época. Estivemos juntas quando ele sofreu um AVC. E estivemos juntas agora, em mais um hospital, em mais uma fratura de fêmur, que não chegou a acontecer a cirurgia, mas foram 22 dias de internação e sofrimento para ele e para nós, até que Joaquim descansou com seus antepassados.

E ainda estivemos juntas, não fisicamente, mas em comum acordo e apoio, apoiadas pelos maridos, no resgate que precisamos fazer do Joaquim em uma situação delicada e complicada, muito complicada.

"Engli" (como Joaquim o chamava) e Alexandre foram mais que dois filhos para o velho, cuidaram dele melhor do que muitos filhos por aí. Sempre nos apoiando, nunca reclamaram, nunca mediram esforços ou recursos para que tentássemos dar ao Joaquim conforto e cuidado. E em todos esses anos nunca houve um desentendimento sequer sobre dinheiro, nem sobre nada que se relacionava ao Joaquim. O velho confiava nos genros, uma vez Joaquim fez uma viagem longa com outra pessoa e quando chegou ele disse que até para dirigir Alexandre e "Engli" eram mais tranquilos. E realmente tinham toda paciência do mundo e sempre faziam mais paradas nas viagens por causa do velho, mesmo que a viagem ficasse bem mais demorada.

Quando nós ou eles precisávamos procurar casa para morar, nossa exigência aos corretores sempre foi: não pode ter escadas, temos um idoso. Até para escolher carro pensávamos nele, então quatro portas não era luxo, era necessidade.

Nunca faltava em nossas casas a banana, a água tônica, o iogurte e a bala para Joaquim. Em nossas viagens juntos sempre rebocávamos o velho, Angra, Guarapari, ele sempre estava lá nas nossas fotos.

Acho que somos conhecidas pelos nossos amigos como as rebocadoras do velho, porque em muitas festinhas e eventos, lá estávamos nós com ele segurando nosso ombro e andando bem devagar.

Claro que falhamos em muitas coisas com o velho, mas temos a consciência tranquila de termos tentado fazer o melhor para ele.

Por tudo isso e muito mais, quero agradecer a vocês três. E sei que não há nada que eu faça que possa recompensá-los por tudo isso. Então só posso dizer: muito obrigada. Sei que Joaquim também diria isso.

E como ele também dizia sempre que fazíamos uma comida que ele gostava: podem continuar fazendo.

E que Joaquim descanse em paz.

Joaquim Vitório

Joaquim de Assis Vitório
8/mar/1925 - 20/nov/2013

Em 20/nov/2013, aos 88 anos, Joaquim Vitório descansou com seus antepassados.
E que ele descanse em paz.

Ele dizia que se sonhasse que estava em um avião, sairia correndo. Mas no ano passado perguntei se queria ir de avião para a casa da Gláucia, depois de passar uns dias comigo no Rio. Ele aceitou sem reclamar. Ainda perguntei várias vezes se iria mesmo, se não faria escândalo no avião, e ele respondeu: "Claro que não vou fazer isso, eu sou homem". E realmente ele foi de avião e não deu o menor trabalho. E eis a foto para provar a sua coragem. E quando chegou em Vitória, ES, falou: "Muito rápido". E então passou a reclamar do restante das cinco horas de viagem que só poderia ser de ônibus. Era muito figura!

Leia também: Meu pai não estava doente, só estava idoso. Ele não morreu, foi assassinado

sábado, 16 de novembro de 2013

Para julgar você precisa conhecer os dois lados da história


P.S.: Se você não viu, não estava na situação, deveria ter muito temor antes de julgar (inocentar ou condenar) e escolher um dos dois lados. Deveria ouvir TODOS os envolvidos, principais e testemunhas. E ainda deveria levar em consideração os antecedentes dos envolvidos, principalmente se você os conhece há muito tempo e sabe quem já mentiu antes (como diria o professor de Nárnia 1), sabe quem já "aprontou" outras vezes. Ou seja, não é simples inocentar ou condenar alguém.

Para julgar é preciso ouvir os dois lados:
"Perfil: Um juiz tem a função de definir questões relacionadas à vida, à liberdade e à escolha de cada indivíduo. 'Ele julga as pessoas. Por isso, é preciso manter a imparcialidade, OUVIR OS DOIS LADOS e não julgar com pré-conceitos', destaca Bacellar." (Fonte) [grifo meu]

E quando há pontos divergentes, deve-se fazer uma acareação:
"A acareação, também conhecida como acareamento, é uma técnica jurídica que consiste em se apurar a verdade no depoimento ou declaração das testemunhas e das partes, confrontando-as frente a frente e levantando os pontos divergentes, até que se chegue às alegações e afirmações verdadeiras.
A acareação é um procedimento onde acusados, testemunhas ou ofendidos, JÁ OUVIDOS, são colocados face a face para esclarecer divergências encontradas em suas declarações. A acareação pode ser requerida pelas partes ou determinada de ofício pelo juiz. Entretanto, a acareação não é uma etapa obrigatória do processo, sendo a sua concessão uma faculdade do juiz."
(Wikipedia) [grifo meu]

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Quem sou eu


Up.

Sobre este blog, leia aqui.

Débora Vitório De Bonis
Rio de Janeiro, RJ, Brasil.
Jornalista e escritora.
Blogueira desde junho/2008.
E também filósofa amadora e antropóloga amadora.
Autora dos livros Libertação é confissão de pecados e Libertação é teshuvah.
Casada com Alexandre.
E meu artesanato é colcha de retalhos.

Penso, logo questiono.
Questiono, logo incomodo.

NÃO sou evangélica, NÃO tenho religião, NÃO tenho igreja, NÃO tenho líder religioso humano. Estou fora do sistema religioso, em completa desconstrução. Mas creio em YHWH, o Eterno, estou aprendendo a obedecer à Torah (Pentateuco), a obedecer a TODOS os mandamentos e estou fazendo teshuvah. Sou sem-religião, mas minha vida é pautada pelos princípios bíblicos e sigo SOMENTE o que está na Torah e não doutrinas humanas. Para saber mais leia Saiba o que, como e porque minha vida mudou.

A certeza de estar no caminho certo não tem preço. E a sensação de que "tem alguma coisa errada" ou "não pode ser só isso" de-sa-pa-re-ceu completamente. Mas tenho cuidado para não trocar seis por meia dúzia ou uma jaula pela outra. Não quero jogar fora o bebê junto com a água do banho.

NÃO acredito na frase: "A felicidade não existe, existem momentos felizes!". Acredito em SER feliz, embora tenha momentos de tristeza.

Sigo o calendário oficial de Israel para festas bíblicas e não comemoro festas pagãs e também não comemoro aniversário.

Débora, cujo nome significa abelha. “... falou que eu era como Débora, cujo nome significa abelha, e que haveria momentos quando minhas palavras seriam doces ao paladar e momentos em que seriam como uma ferroada.” Cindy Jacobs. Abelhas não atacam. Elas apenas se defendem quando são atacadas.

"Então, eu tive aquele encontro com o Eterno [e com a Torah] do qual nunca me recuperei". Tommy Tenney

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Violência obstétrica - A voz das brasileiras! ou Violência no sistema de saúde no Brasil - A voz dos pacientes!

Estou novamente passando mal com um assunto, como aconteceu quando comecei a pesquisar e escrever sobre misoginia. E como escrevi naquela época, vou repetir minhas palavras, porque é assim que estou me sentindo hoje:

"Quanto mais mergulho na pesquisa e medito no assunto, mais me dá vontade de bater muito em um saco de areia – para não bater nos desumanos que conheci. Estou irada! Meu estômago está revirado, minhas entranhas se contorcendo, um frio intenso na barriga, ansiedade, insônia, porque, a mente não para de pensar, pensar, pensar, enfim, meus sintomas de assunto-bomba e de revelações chegando aos montes. Sinto que vou explodir."

O assunto agora é esse do título e começou quando assisti ao vídeo Violência obstétrica - A voz das brasileiras! e ao trailer do filme O renascimento do parto. E depois de quase surtar, comecei a ler sobre o assunto, e quanto mais eu leio, mais indignada vou ficando.

Hoje acordei como se estivesse de ressaca, como se um trator tivesse me atropelado ontem, como se tivesse levado vários socos na boca do estômago. Estou muito indignada, irada, com vontade de gritar, de bater em alguém, sufocada.

Diferente do assunto misoginia, desta vez a indignação é pessoal, não porque tenha sido vítima da violência obstétrica, pois não tenho filhos, mas porque somos todos vítimas da violência médica, por isso coloquei um "ou" e aumentei o título do post. E como escrevi no Facebook, "peço perdão aos bons profissionais da saúde (conheci pouquíssimos), mas acompanhando meu pai em vários hospitais, várias cirurgias [catarata nos dois olhos, prótese no joelho, duas cirurgias por causa da fratura do fêmur, e ainda houve um AVC], inúmeras consultas, sendo acompanhante de outros dois idosos em um hospital, e acompanhando um pós-parto, me sinto como essas mulheres do documentário e até hoje tenho gritos presos na garganta. Sei que a dor delas é muito maior, nem posso comparar, mas senti na pele como é ser tratado como lixo dentro dos hospitais e consultórios médicos."

Tenho tantas histórias de desumanidade que sofri e vi nos hospitais, públicos e particulares, que poderia gravar um documentário parecido. E tenho certeza de que levaria uns 50 anos para gravar depoimentos de pessoas que sofreram violência médica no sistema de saúde no Brasil. Quem não tem uma história para contar que levante a mão.

Como recordar é viver, estou revivendo toda a humilhação, toda a indignação, toda ira, toda revolta, toda incredulidade, toda violência que vivi nesses hospitais e consultórios. Cada depoimento que ouvia me fazia reviver tudo que passei com médicos, enfermeiros e recepcionistas desumanos, que gritaram comigo, que não deram informação correta, que não ensinaram nada, que praticamente me disseram "se vira", que me trataram como uma idiota, que me roubaram vários direitos, que trataram meu pai com crueldade, que pegaram o bebê que havia acabado de nascer como se pega um cachorrinho, pelo pescoço, sem nenhuma delicadeza (aliás, devem tratar muito melhor seus cachorrinhos e bichinhos de estimação). Estou revivendo a humilhação de um assédio sexual que sofri em um consultório de dermatologia, e também estou revivendo a agressão de me sentir cobaia nos tratamentos de rinite alérgica e ainda ter sido forçada a fazer infiltração no nariz sem saber antes o que iria acontecer e quando percebi havia uma agulha sendo enfiada nas minhas narinas e uma injeção sendo aplicada em cada uma e nem quero descrever o que senti naquele momento. E esses dois casos aconteceram na rede particular, quando eu tinha um dos melhores planos de saúde da época.

E como reviver pode trazer cura interior, espero que eu esteja purgando todas essas dores e gritos sufocados com a ajuda de outras pessoas que sofreram muito mais do que eu, ouvindo o depoimento delas, sentindo a dor delas, chorando com elas. Que venha a cura, enfim. Tá doendo, mas que seja para ser curada.

E novamente vejo o padrão acontecendo, as pessoas sofrem essas coisas e pensam que é só com elas, e de repente alguém se atreve a falar, a denunciar, e aí começamos a perceber que não, não foi só comigo, tem muuuuuuuita gente sofrendo como eu, mais do que eu, é muita dor, é muita dor.

Assistam aos vídeos, se tiverem coragem.